A ilha, explicada
Ilha Grande: a ilha sem carros, e a história que este passeio não visita
Uma colónia de leprosos, depois uma prisão de segurança máxima, depois nada construído aqui durante um século — por que razão Ilha Grande não tem estradas, e que partes dessa história esta excursão de um dia realmente mostra.
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| O que foi | Neste passeio? | |
|---|---|---|
| Lazareto | Hospital de leprosos, em funcionamento a partir de 1886 | Não — história geral da ilha |
| Prisão Cândido Mendes | Prisão de alta segurança em Dois Rios, encerrada em 1994 | Não — do outro lado da ilha |
| Freguesia de Santana | Povoado original; igreja reconstruída em 1843 | Sim — uma paragem neste percurso |
| Parque Estadual da Ilha Grande | Mata Atlântica que cobre a maior parte da ilha | Parcialmente — vista a partir da água |
Um século sem chegadas por vontade própria
Durante quase cem anos, ninguém se instalou em Ilha Grande por vontade própria. A ilha albergou primeiro o Lazareto, um hospital de leprosos em funcionamento a partir de 1886 que mantinha os doentes contagiosos isolados dos portos do continente ali perto. Mais tarde, em Dois Rios, do outro lado da ilha, o Estado brasileiro construiu a penitenciária Cândido Mendes, uma prisão de alta segurança que acolheu alguns dos criminosos mais graves do país e, durante o regime militar de 1964–85, também presos políticos. Foi encerrada em 1994. Nada dessa história se encontra no percurso deste passeio — Dois Rios fica uma viagem de barco de distância das paragens que esta escuna faz — mas é, em grande parte, a razão pela qual a ilha tem hoje o aspeto que tem: fechada ao desenvolvimento durante um século, e deixada, em grande medida, à floresta.
Sem carros, e o que isso realmente significa
Não existem estradas para carros em lado nenhum de Ilha Grande — não é uma escassez de estradas, é uma ausência total delas. Tudo se move de barco ou a pé, incluindo materiais de construção, alimentos e a recolha do lixo nas zonas habitadas da ilha. Para um visitante, isso traduz-se sobretudo em silêncio: nenhum ruído de motor depois de sair da escuna, nenhum trânsito a evitar numa paragem de praia, e uma floresta que desce até à linha de água de uma forma que uma estrada normalmente teria cortado. Significa também que todas as paragens deste itinerário são alcançadas da mesma forma que o passeio as alcança — pela água — o que é, no fundo, a razão pela qual uma excursão de escuna, e não um passeio de autocarro, é a forma de ver esta ilha.
Freguesia de Santana: a parte da história que se vê mesmo
A única paragem deste percurso com idade a sério é Freguesia de Santana, o ponto de povoamento original de Ilha Grande, do século XVII. Um proprietário de terras ergueu aqui a primeira capela em 1796; o povoado foi formalmente elevado a paróquia em 1803; e quando esse primeiro edifício acabou por ruir, o governo provincial do Rio de Janeiro reconstruiu-o em 1843. Essa igreja de 1843 continua de pé e é geralmente considerada o edifício religioso mais importante da ilha — uma igreja simples, de construção sóbria, em vez de ornamentada, mas a estrutura mais antiga que a maioria dos visitantes de Ilha Grande alguma vez verá. À sua volta, um povoado que outrora sustentou a economia do café e do açúcar da ilha é hoje lar de algumas dezenas de residentes.
O que é, na realidade, a Ilha Grande de hoje
A maior parte da ilha situa-se hoje dentro de um parque estadual, com a sua Mata Atlântica em grande parte intacta, e as suas praias entre as menos desenvolvidas do estado do Rio de Janeiro, precisamente porque nunca aqui se construiu nada em grande escala. Este passeio mostra uma fatia funcional disso — ilhéus, uma lagoa, um povoado histórico de praia, uma paragem para almoço — em vez das trilhas de caminhada, das ruínas da antiga prisão ou da vila principal de Vila do Abraão, em torno das quais se organizam as estadias mais longas na ilha. Vale a pena conhecer a diferença antes de ir: esta é uma introdução, num só dia, à baía onde se situa Ilha Grande, e não um circuito completo da própria ilha.
Se a história lhe despertar interesse suficiente para voltar
Ilha Grande recompensa uma estadia mais longa para quem quiser ver Dois Rios ou caminhar até Lopes Mendes, regularmente apontada como uma das melhores praias do Brasil — nenhuma das duas é alcançada por esta excursão de um dia. Um dia de escuna a partir do Rio é uma introdução genuína e válida à baía — simplesmente não é a mesma viagem do que algumas noites hospedado em Vila do Abraão, com tempo para caminhar pelas trilhas. Encare este passeio como a prova, não como a refeição completa, e vai avaliá-lo com justiça.